sexta-feira, 13 de outubro de 2017

História de um olhar

O mundo é salvo todos os dias por pequenos gestos. Diminutos, invisíveis. O mundo é salvo pelo avesso da importância. Pelo antônimo da evidência. O mundo é salvo por um olhar. Que envolve e afaga. Abarca. Resgata. Reconhece. Salva.
Inclui.
Esta é a história de um olhar. Um olhar que enxerga. E por enxergar, reconhece. E por reconhecer, salva.
Esta é a história do olhar de uma professora chamada Eliane Vanti e de um andarilho chamado Israel Pires.
Um olhar que nasceu na Vila Kephas.Dizem que, em grego, kephas significa pedra. Por isso um nome tão singular para uma vila de Novo Hamburgo. Kephas foi inventada mais de uma década atrás pedra sobre pedra. Em regime de mutirão. Eram operários da indústria naqueles tempos nada longínquos. Hoje, desempregados da indústria. Biscateiros, papeleiros. Excluídos.
Neste Kephas cheia de presságios e de misérias vagava um rapaz de 29 anos com o nome de Israel. Por que em todo lugar, por mais cinzento, trágico e desesperançado que seja, há sempre alguém para ser chutado por expressar a imagem-síntese, renegada e assustadora, do grupo. Israel, para a Vila Kephas, era esse ícone. O enjeitado da vila enjeitada. A imagem indesejada no espelho.
Imundo, meio abilolado, malcheiroso, Israel vivia atirado num canto ou noutro da vila. Filho de pai pedreiro e de mãe morta, vivendo em uma casa cheia de fome com a madrasta e uma irmã doente. Desregulado das ideias, segundo o senso comum. Nascido prematuro, mas sem dinheiro para diagnóstico. Escorraçado como um cão, torturado pelos garotos maus. Amarrado, quase violado, Israel era cuspido. Era apedrejado. Israel era a escória da escória. 
Um dia Israel se aproximou de um menino. De nove anos, chamado Lucas. Olhos de amêndoa, rosto de esconderijo. Bom de bola. Bom de rua. De tanto gostar do menino que lhe sorriu, Israel o seguiu até a escola. Até a porta onde Lucas desaparecia todas as tardes, tragado sabe-se lá por qual magia. Até a porta onde as crianças recebiam cucas e leite. Israel chegou até lá por fome. De comida, de afago, de lápis de cor. Fome de olhar.
Aconteceu neste inverno. Eliane a professora, descobriu Israel. Desajeitado, envergonhado, quase desaparecido dentro dele mesmo. Um vulto, um espectro na porta da escola. Com um sorriso inocente e uns olhos de vira-lata pidão, dando a cara a cara para bater porque nunca foi capaz de escondê-la. Eliane viu Israel. E Israel se viu refletido no olhar de Eliane. E o que se passou naquele olhar é um milagre de gente. Israel descobriu um outro Israel navegando nas pupilas da professora. Terno, especial, até meio garboso. Israel descobriu nos olhos da professora que era um homem, não um escombro.
Capturado por essa irresistível imagem de si mesmo, Israel perseguiu o olho de espelho da professora. A cada dia dava um passo para dentro do olhar. E, quando perceberam, Israel estava no interior da escola. E, quando viram, Israel estava na janela da sala de aula da 2ª série C. Com meio corpo para dentro do olhar da professora.
Uma cena e tanto. Israel na janela, espiando para dentro. Cantando no lado de fora, desenhando com os olhos. Quando o chamavam, fugia correndo. Escondia-se atrás dos prédios. Mas devagar, como bicho acuado, que de tanto apanhar ficou ressabiado, foi pegando primeiro um lápis, depois um afago. E, num dia de agosto, Israel completou a subversão. Cruzou a porta e pintou bonecos de papel. Israel estava todo dentro do olhar da professora.
E o olhar começou a se espalhar, se expandir, e engolfou toda a sala de aula. A imagem se multiplicou por 31 pares de olhos de crianças. Israel, o pária, tinha se transformado em Israel, o amigo. Ganhou roupas, ganhou pasta, ganhou lápis de cor. E, no dia seguinte, Israel chegou de banho tomado, barba feita, roupa limpa. Igualzinho ao Israel que havia avistado no olho da professora. Trazia até umas pupilas novas, enormes, em forma de facho. E um sorriso também recém-inventado. Entrou na sala onde a professora pintava no chão e ela começou a chorar. E as lágrimas da professora, tal qual um vagalhão, terminaram de lavar a imagem acossada, ferida, flagelada de Israel.
Israel, capturado pelo olhar da professora, nunca mais o abandonou. Vive hoje nesse olhar em formato de sala de aula, cercado por 31 pares de olhos de infância que lhe contam histórias, puxam a mão e lhe ensinam palavras novas. Refletido por esses olhos, Israel passou a refletir todos eles. E a professora, que andava deprimida e de mal com a vida, descobriu-se bela, importante, nos olhos de Israel. E as crianças, que têm na escola um intervalo entre a violência e a fome, descobriram-se livres de todos os destinos traçados nos olhos de Israel.
Israel, não importa se alguém não gosta de você. O que importa é que você siga a vida, aconselha Jeferson, de oito anos. Israel, não faz mal que tu sejas grande e um pouco doente, tu podes fazer tudo o que tu imaginares, promete Greice, de nove. Israel, se alguém te atirar uma pedra eu vou chamar o Vandinho, porque todo mundo tem medo do Vandinho, tranquiliza Lucas, nove. Israel, tu me botas na garupa no recreio?
E foi assim que o olhar escorreu pela escola e amoleceu as ruas de pedra.
Israel, depois que se descobriu no olhar da professora, ganhou o respeito da vila, a admiração do pai. Vai ganhar uma vaga oficial na escola. Já consegue escreveu o "P" de professora. E ninguém mais lhe atira pedras. A professora, depois que se descobriu no olhar de Israel, ri sozinha e chora à toa. Parou de reclamar da vida e as aulas viraram uma cantoria. A redenção de Israel foi a revolução da professora.
Em 7 de Setembro, Israel desfilou. Pintado de verde-amarelo, aplaudido de pé pela Vila Pedra.
(18 de setembro de 1999)
Eliane Brum em "A vida que ninguém vê". Arquipélago Editorial. Porto Alegre, 2006.


sábado, 5 de agosto de 2017

Memórias semânticas

Todos nós temos nossas máquinas do tempo.
Algumas nos levam pra trás, são chamadas de memórias.
Outras nos levam para frente, são chamadas sonhos.

O ponto de partida para qualificar como semânticas uma parte das minhas memórias foi uma consequência de leituras acerca do processo de memorização que o cérebro executa, a partir de várias divisões ou aspectos da memória, definidas sob a ótica da neurologia.
Desse ponto de vista, as memórias semânticas se caracterizam pelo significado que elas representam para cada pessoa. E aqui, é justamente o ponto focal da minha reflexão, qual seja trazer à tona as memórias que traduzem afeto, contentamento, ternura e até mesmo uma saudade boa que insistimos, por vezes, em sentir. Tais memórias são extremamente valiosas e prescindem de marcações temporais e espaciais; são preciosas tão somente pelo seu significado, pela produção de sentido e, ainda, pela compreensão de que se constituem uma versão (a minha versão) de um determinado momento, e não necessariamente o registro literal da realidade.
Nessas memórias, a sinestesia se faz presente, a começar pelo som porque, como disse Samuel Howe, quando se ouve boa música, fica-se com saudade de algo que nunca se teve e nunca se terá. Isso significa que dificilmente escaparemos de sentir saudade, o que não implica necessariamente sentir tristeza, embora uma vez ou outra ela se faça presente porque não há como eximi-la da nossa história pela escolhas que fazemos e pelas perdas inevitáveis que as escolhas determinam.
Na esteira dessas divagações, é interessante perceber que nem sempre somos nós quem escolhemos as músicas; talvez haja uma sintonia que ocasiona a conexão que ignoramos a origem, todavia ela se estabelece naturalmente e se perpetua até quando nos é (e for) possível lembrar. Ainda como parte desse processo harmônico, a música nos encanta em espaços e momentos inusitados, em que os nossos olhos brilham e a mente silencia para o coração sentir. Isso me remete ao pensamento de Shopenhauer: a música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende.
Nessa escala sinestésica, o cheiro tem o seu espaço, o que não significa que estejamos falando tão somente do aroma dos líquidos alojados em frascos. Há momentos em que paira no ar um cheiro que nem sempre é possível identificar a fragrância porque a origem não é de um produto determinado, palpável, mas sim do ambiente que já se encontra impregnado pelas próprias características e somente alguns conseguem identificar esse aroma.
Permeando todas as nuances das memórias semânticas está a afetividade que, naturalmente, aflora quando algum fator – externo ou interno – desencadeia as reminiscências, o que nos permite empreender uma viagem. E, nesse contexto, há dias que, por si só, despertam ou inspiram a evocação, seja de uma melodia, seja de um aroma; e o sábado parece ser um dia assim pela própria atmosfera peculiar do seu lugar no calendário. Já li que o sábado é a rosa da semana, talvez porque nos leve a uma espécie de limbo, onde enxergamos a passado e vislumbramos o porvir.  
Há, também, lugares que remontam a outros espaços pelo efeito causado por um detalhe que os olhos captam em meio a tantos outros que compõem determinado cenário, o que desencadeia um processo de reconstituição de imagens ou de recortes de conversas numa nítida ilustração de que tudo o que vivemos está bem guardado, na expectativa de um sinal para despertar.   
É bem verdade que as memórias semânticas são tênues, ainda que tenham uma presença física, quase viva. E isso pode ser exemplificado a partir de um outro aspecto, o estilo – algo que não pode, evidentemente, ser associado à roupa. Isso porque o estilo é o que traduz o movimento da alma, que revela o que pensamos. Em determinados contextos e de forma inusitada, enxergamos algum estilo que prontamente é associado a imagens e textos remotos, embora precisemos admitir a possibilidade de que, às vezes, uma parte dessas memórias já tenha fugido ou se confundido com os sonhos. Como saber?
Pôr fim a tais elucubrações não significa dizer que foram esgotadas as nuances semânticas da memória, por isso o mais adequado seria dizer, talvez, que se trata somente de uma pausa...

sábado, 17 de junho de 2017

A escrita em mim




Aquele que tem por vício a leitura, droga alucinógena das mais leves, acabará cada vez mais dependente dela. E o pior, passará para drogas mais pesadas, como a escrita.
Nesta fase crítica, o leitor, agora escritor, tende a fugir regularmente da realidade e ter devaneios de que, assim como Deus, é criador de Universos inteiros.
 (Maleski)

É a palavra escrita que me permite a interação com o mundo – é ela que registra, que protesta, que chora, que sorri e que traduz o que me incomoda, o que me entristece e o que me causa contentamento. Põe-me em estado deliciosamente ilusório de que tenho controle sobre o que expresso.
A palavra escrita me permite ser comedida, pois releio, avalio, pondero e registro. Por outro lado, ela me cobra pela durabilidade do que está à vista dos olhares, ainda que relativa, dada a assustadora fluidez que caracteriza esses tempos de tanta liquidez. Há um preço pela permanência do impresso. Nessa hora, penso que ser loquaz com as palavras na oralidade tenha lá sua recompensa, já que o vento carrega o desnecessário e até mesmo as pérolas.
Nesse processo de análise, percebo a magia que há nas palavras e me permito divagar pelos meandros das possibilidades existentes na escolha, na apreciação dos efeitos, na sonoridade que o encadeamento delas pode produzir. Pensando nisso, é no processo da escrita que tais possibilidades me acenam oferecendo cores e nuances diversificadas, às vezes nunca vistas em outras palavras grafadas.
Entretanto, nem por isso deixo de admirar quem consegue escolher e estabelecer conexões seguras, claras e belas agregadas à entonação vibrante em discursos sonoros e vibrantes.
Ainda assim, enche-me os olhos o bordado que a palavra escrita elabora ao dar conta dos pontos que se entrelaçam e inspiram novas conexões às vezes com o mesmo tom, às vezes com tons tão distintos. E é justamente isso que dá singularidade ao que foi escrito.
A descoberta sobre ser a escrita o meu instrumento de comunicação com o mundo se deu em tempos idos, bem idos; quando escrevia diários e cartas, quando não cabiam mais em mim as palavras não ditas, as ideias só pensadas, as impressões sobre o mundo que me habitava. Depois de tanto tempo, o registro continua a ser feito, ainda que com mais leveza, menos sistematização e mais clareza, sobretudo no tocante às reais necessidades que determinam as temáticas que ocupam espaço em mim e que compõem parte do meu universo.
Entusiasma-me, enfim, pensar no efeito produzido de quem busca, nas linhas, nas entrelinhas e para além das linhas, o caminho percorrido por quem executa esse ritual de compor o cenário tão multifacetado da escrita.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Declaração de amor



Esta é uma declaração de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.
Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida. 
Essas dificuldades nós a temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro pra mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que minha abordagem do português fosse virgem e límpida.
                                                                Clarice Lispector. Crônicas para jovens: de escrita e vida.

domingo, 14 de maio de 2017

De mãe (Conceição Evaristo)

O cuidado de minha poesia
Aprendi foi de mãe
mulher de pôr reparo nas coisas
e de assuntar a vida.


A brandura de minha fala
na violência de meus ditos
ganhei de mãe
mulher prenhe de dizeres
fecundados na boca do mundo.


Foi de mãe todo o meu tesouro
veio dela todo o meu ganho
mulher sapiência, yabá,
do fogo tirava água
do pranto criava consolo.


Foi de mãe esse meio riso
dado para esconder
alegria inteira
e essa fé desconfiada,
pois, quando se anda descalço
cada dedo olha a estrada.


Foi mãe que me descegou
para os cantos milagreiros da vida
apontando-me o fogo disfarçado
em cinzas e a agulha do
tempo movendo no palheiro.


Foi mãe que me fez sentir
as flores amassadas
debaixo das pedras
os corpos vazios
rente às calçadas
e me ensinou,
insisto, foi ela
a fazer da palavra
artifício
arte e ofício
do meu canto
de minha fala.

P.S.: A quem interessar saber quem é Conceição Evaristo: https://www.escrevendoofuturo.org.br/conteudo/noticias/educacao-e-cultura/artigo/2363/ocupacao-conceicao-evaristo